sábado, 7 de julho de 2012

O "bem" do século.

           A cada vez que lia aqueles poemas eu pensava, “como podem se encaixar tão bem com o que eu quero dizer?”. A maior parte daquelas palavras parecia até já ter pairado por meus sonhos, e quando eu as lia em um poema, mesmo que desconhecido, sentia uma sensação de reencontro. De alguma forma aqueles versos me pareciam familiares, como se já os tivesse lido várias outras vezes. E de um jeito simples e sutil, sentia que os reconhecia, como um velho amigo que não encontrava há alguns anos, e apesar de não lembrar bem de todos os seus detalhes, confirmava o velho laço de amizade ao observar o brilho singular em seus olhos.
Álvares de Azevedo inspirava de tal maneira que eu sentia um enorme prazer ao lê-lo. Trazia sempre um de seus poemas na ponta da língua, “Se eu morresse amanhã”. Dizia que qualquer um que me conhecesse de verdade já havia me visto recitando-o. Era sem dúvidas o meu preferido. E se encaixava tão bem com tudo que acontecia comigo.
Talvez o que eu mais gostasse nele fosse o seu atenuado eufemismo, que o "pupilo" de Lord Byron aprendera com tanta maestria. Álvares demonstrava isso na forma como falava da doença, na sua eterna fixação pela morte e o modo como mostrava ser esta a solução para as suas angústias. E com tudo isso, na sua melhor sutileza, tinha lá um belo poema.
A cada demonstração minha de idolatria e apreço pelo mal do século, cabeças e olhos curiosos surgiam. Talvez se questionassem o porquê de alguém ter tamanha estima por tal literatura. Alguns me julgavam triste por essa fixação... Simplesmente não compreendiam. Mas eu não me importava, desde que houvesse alguns ultra-românticos para me entender. A segunda fase do romantismo estava impregnada em cada célula minha. E por mais que eu quisesse, não conseguia me livrar daquele gosto. Eu pensava, talvez algum dia, em algum mês, de algum ano, quando o meu ponto final chegasse, alguém podia lembrar do meu poema preferido e dizer, “O amanhã dela finalmente chegara”.

Um comentário:

  1. O ultraromantismo sempre foi "complicado" de ser entendido, por minha parte, é claro. Nunca entendi a razão de alguém se identificar com a morte, pessimismo e sentimentos do tipo. Porém, com uma certa maturidade literária e o conhecer de algumas pessoas na minha vida, passei admirá-lo. Pois vi que não é o que o poeta em si diz, mas sim quem essas pessoas me fizeram entender dizem.
    Por isso, minha admiração por quem é assim, por quem entende e se identifica com o que é dito por essa geração. Eu sei que não tem a ver com tristeza, sem também que não tem nada a ver com o que eles dizem, mas sei que tem a ver com o que é sentido por quem os entende... E você, minha cara, os entende bastante. Isso é tão romântico. Isso é tão sensível. Isso tão nobre... Fico feliz com esse texto, porque com ele cheguei mais próximo de entender os ultraromanticos, ou seja, cheguei mais próximo de te entender. E isso é o que conta.
    No mais, ótimo texto. Excelente no dizer, excelente no sentir.

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